sábado, 7 de julho de 2012

O Anjo caído

sábado, 7 de julho de 2012
Era um anjo de Deus
Que se perdera dos Céus
E terra a terra voava.
A seta que lhe acertava
Partira de arco traidor
Porque as penas que levava
Não eram penas de amor.

O anjo caiu ferido,
E se viu aos pés rendido
Do tirano caçador
De asa morta e sem 'splendor
O triste, peregrinando
Por estes vales de dor,
Andou gemendo e chorando.


Vi-o eu, o anjo dos Céus,
O abandonado de Deus,
Vi-o, nessa tropelia
Que o mundo chama alegria,
Vi-o a taça do prazer
Pôr ao lábio que tremia...
E só lágrimas beber.


Ninguém mais na Terra o via,
Era eu só que o conhecia...
Eu que já não posso amar?
Quem no havia de salvar?
Eu, que numa sepultura
Me fora vivo enterrar?
Loucura! ai, cega loucura!


Mas entre anjos dos Céus
Faltava um anjo ao seu Deus;
E remi-lo e resgatá-l0
Daquela infâmia salvá-lo,
Só força de amor podia
Quem desse amor há-de amá-lo,
Se ninguém o conhecia?


Eu só.-E eu morto, eu descrido,
Eu tive o arrojo atrevido
De amar um anjo sem luz.
Cravei-a nessa cruz
Minha alma que renascia,
Que toda em sua alma pus.
E o meu ser se dividia,


Porque ela outra alma não tinha,
Outra alma senão a minha...
Tarde, ai!, tarde o conheci,
Porque eu o meu ser perdi,
E ele à vida não volveu...
Mas da morte que eu morri
Também o infeliz morreu.


Almeida Garrett - Folhas Caídas 
Editora Publicações Europa-América

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